segunda-feira, 9 de maio de 2011

Discriminação laboral das mulheres no séc. XXI (II de II)

(II de II) A questão das quotas.

Segundo a abordagem feminista liberal o problema da discriminação do género nas organizações era de poder e não de género.
A situação desprivilegiada das mulheres resultava da falta de poder suficiente nas organizações. É precisamente desta teoria que surge a solução para a instituição de quotas mínimas de mulheres como meio de incrementar o poder feminino e acelerar o fim da situação de desprivilégio.

A perspectiva radical veio contestar essa visão com o argumento de que as organizações modernas enfermavam de valores e padrões patriarcais, ao que, neste ambiente as mulheres teriam sempre tendência a ser relegadas para papéis subordinados. Como solução apontava a criação de novos modelos de organização, mais democráticos, participativos e cooperativos, contrapondo o autoritarismo, a inflexibilidade e a insensibilidade do “modelo masculino".

Ambas as teses têm produzido alguns resultados, embora não sem algumas consequências. As quotas podem ser encaradas como mau princípio, um atestado da inferioridade de um género e uma forma obrigatória de discriminação já que se impõe critérios de selecção em função do género.
Por outro lado, sempre que em cumprimento de uma quota, uma mulher atinja um cargo por privilégio do seu género, o seu mérito e as suas qualidades são secundarizadas quer pela própria quer por terceiros que enaltecem o género como suporte de críticas.

Uma outra consequência pode ser considerada a masculinização das mulheres que alcançam cargos habitualmente destinados a homens, e que, por não deterem autonomia suficiente para alterar a cultura organizacional, se obrigam a “gerir como homens”. Isto, para além da conflituosidade de papéis sociais (sentida pelas próprias e por terceiros) e da submissão do género, cria uma concorrência desleal entre mulheres e homens, já que estes últimos se encontram em vantagem ao exercerem os cargos no seu “meio natural”.

Sabe-se que enquanto o género for uma construção social que determine diferentes papéis sociais, haverá comportamentos e atitudes diferenciadas que pode levar à discriminação na carreira, geralmente com prejuízo para o género feminino.
Os números oficiais da Comissão para a Igualdade no Trabalho - CITE revelam que as queixas continuam a aumentar. Contudo, a visão patriarcal está de facto em desuso e é socialmente repudiada.
Quando aos dados oficiais de emprego (INE), destaca-se a elevada taxa de feminização (71,4%) entre os desempregados com nível de instrução superior. No que respeita a áreas de emprego qualificado que escapam à conotação de “profissões femininas”, a advocacia e magistratura são ramos onde o género feminino parece bastante promissor, revelando mesmo uma superior representação face ao género masculino.

Porém, em termos gerais, este aumento de feminização do mercado de trabalho continua a não traduzir igualdade em proveitos do trabalho, e a discriminação salarial é tanto maior, quanto maior o nível de qualificações.

No que concerne a atitudes discriminatórias, as consequências das acções sexistas, incluindo os assédios, são cada vez menos exclusivas às mulheres, e tal como a discriminação racial, a discriminação com base no género está a perder destaque em função de outros factores como a preferência sexual (heterosexismo) e especialmente a idade (idadismo). Esta última forma de discriminação ameaça mesmo vir a assumir-se como uma principal forma de discriminação, tal a alteração da estrutura etária das populações que a sociedade se prepara para viver.

É de extrema importância continuar a chamar a atenção para este problema real que subsiste na nossa sociedade e assim impedir que a ignorância e o absentismo trave a sua mitigação.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Discriminação laboral das mulheres no séc. XXI (I de II)

(I de II) O novo sexismo e a ordem de género.

As recentes teorias de socialização e do papel do género têm vindo a relegar para segundo plano a importância biológica e cultural do sexo e do género, e apontam que ambos são produtos construídos socialmente, até porque o próprio corpo humano está hoje sujeito às forças sociais sendo passível de moldagem por acção humana, consoante escolhas pessoais e contextos sociais.

Considerando que a discriminação significa a manifestação comportamental do preconceito, o sexismo define-se como atitude preconceituosa e/ou discriminação tendo por base o género da pessoa.
O acto discriminatório não requer a intenção de discriminar, ele ocorre sempre que homens ou mulheres são colocados em desvantagem simplesmente por causa do seu género. Na prática, verifica-se que a discriminação sexista sempre foi mais evidente pelo género feminino, girando em torno de três grandes temas: a natureza; a família e o trabalho.

De facto, no trabalho e em cargos de responsabilidade, o género feminino continua sendo segregado para funções que são vistas como compatíveis com a “natureza feminina” implicando sobretudo o cuidar dos outros como são exemplos as áreas da educação do secretariado, da enfermagem, serviços pessoais ou da assistência social. Outra característica dos postos de trabalho vistos como “mais femininos” (os quais perpetuam os estereótipos), concentra-se na pouca autoridade, influência ou espaço para ascender profissionalmente.

Recentemente, as novas formas de trabalho como o trabalho a tempo parcial e o teletrabalho, instituído com relevo nos países da Europa do Norte, são na maior parte um trabalho feminino, conservando uma diferença salarial entre os sexos bem como a questão da divisão das tarefas domésticas. Isto significa que o actual aumento da efeminização da população activa, geralmente em situação de alguma ou bastante precariedade e em tarefas vistas como “naturalmente” femininas, não expressa uma redução real da discriminação pelo género feminino.

Connel (1987 e 1995) designou os padrões de relação de poder entre masculinidades e feminilidades difundidas pela sociedade como “ordem de género”, na qual se identifica a existência de “acordos sociais colectivos” acerca do comportamento comum das pessoas também em função do género. Segundo Connel, a ordem de género não é estática. Ela resulta de uma construção contínua que acompanha a evolução cultural da sociedade, sendo vulnerável a alterações. Por isso, embora a visão patriarcal não esteja tão evidente como no passado, a ordem de género subsiste e continua a ditar as regras de socialização de género…

sexta-feira, 25 de março de 2011

De volta ao sismo: nós por cá.

Esta foto bem podia ser do Aeroporto de Faro...

Nos países costeiros não são só os escombros, as ruínas e os incêndios que flagelam uma população atingida por um sismo. O mar tem a capacidade imperdoável de magnificar a energia tectónica que a Terra liberta, e com um alcance superior...

As imagens que nos chegaram do Tsunami chocaram-nos a todos. Ao vê-las, apenas a ficção de grandes produções cinematográficas como "2012" ou "O dia depois de amanhã" se nos assemelham.


Por outro lado expande-nos a perspectiva histórica de como terá sido o histórico "Terramoto de Lisboa" de 1755 - que dizimou a capital do país, destruindo igualmente a capital do Algarve - então cidade de Lagos. A propósito de Lagos, a magnitude da destruição e a monopolização dos recursos disponíveis para a reconstrução de Lisboa fez com que a cidade das descobertas não mais pudesse recompor as suas singulares capacidades portuárias, passando o papel de capital do Algarve a ser desempenhado pela cidade de Faro, cujas ilhas-barreira lhe deram abrigo da austeridade dos maremotos.

O território continental português e em especial o Sul são zonas de elevado risco sísmico. As áreas costeiras da grande Lisboa e o litoral Algarvio são as zonas mais sensíveis a tsunamis. Ao contrário da linha de costa que o tsunami japonês varreu na passada Sexta-feira, estas zonas possuem uma densidade populacional dezenas de vezes superior. No Algarve e em Lisboa não são só aldeias e bairros pré-fabricados. São bairros inteiros, torres junto a orlas dunares, habitações apinhadas em ilhas-barreira, em suma, muralhas gigantes de betão e de pessoas que afrontam com a sua existência os riscos de um evento desta natureza.

Pode-se dizer que as construções do Sul de Portugal dos últimos 20/30 anos têm já bastante resistência sísmica. A engenharia permite que as estruturas de betão permaneçam erguidas após a violência dos abalos. Mas quais os requisitos anti-tsunami?
Para resistir ao impacto físico de uma sucessão de vagas gigantes são precisos requisitos construtivos do tipo portuários mas as habitações e empreendimentos turísticos localizados na orla costeira estão construídos ao mais baixo custo obedecendo quanto muito a critérios meramente sísmicos.
Quanto ao urbanismo em si, se estamos a milhas de preparar as nossas urbes para as cheias de Inverno, como podemos considerá-las aptas a enfrentar as ondas gigantes?

Se sofrermos um terramoto deste calibre no maldito famoso banco de Gorringe teremos escassos minutos para fugir das zonas costeiras. Quando as pessoas estarem recompostas do abalo e os meios de protecção civil chegarem aos locais para iniciarem operações, teremos as ondas gigantes a alcançar a costa urbanizada.

Aos políticos, aos técnicos, às empresas e cidadãos que ainda respeitam a grandeza do mar:
Temos que discutir muito mais que o perigo das derrocadas que podem ferir banhistas. Mais que erosão da linha de costa que vai cada vez mais sendo cedida ao mar.
Há bastante mais em jogo no que toca ao ordenamento costeiro. Temos que discutir e promover a protecção das populações humanas perante eventos tão prováveis quanto imprevisíveis, e tão perigosos quanto ignorados...

terça-feira, 15 de março de 2011

O Monstro nipónico

O 11 de Março 2011 ficará na história não pelos atropelos do Primeiro Ministro às instituições democráticas do país mas por um evento cataclísmico ocorrido no país tecnologicamente mais avançado...

A terra voltou a tremer.
Não existem palavras para descrever a devastação oferecida ao Nordeste nipónico nem palavras para louvar o sangue-frio e disciplina com que o povo do imperador (cujo nome - Akihito - não se refere) encarou a catástrofe e enfrenta as consequências.
Trata-se do maior desastre da história do Japão desde a 2GM. As vítimas ascendem às dezenas de
milhar de mortos, os prejuízos materiais e imateriais nunca serão calculáveis...

O perigo nuclear.
200 mil mortos e 3 milhões de desalojados resultaram do sismo de 10 de Janeiro de 2010 em Port-au-Prince no Haiti a 10 de Janeiro 2010. No Japão não se espera tamanhos números, obviamente até pela demografia da região, mas por lá os danos não incidem somente sobre as construções, redes de saneamento energia ou comunicações...

A monarquia constitucional mais moderna do mundo possui 54 Centrais Nucleares que representam 30% da sua produção eléctrica e agora vê algumas delas a ceder à improvidência... No que respeita ao nuclear, com as sucessivas explosões e disseminação de radioactividade é já considerado o pior acidente desde Chernobyl.

Preocupados, os simpatizantes do Nuclear manifestam-se contra comparações, alegando que as centrais que estão a vitimar seres humanos ou em risco de, são antigas cuja tecnologia não comparação possível à segurança e modernidade das "novas" centrais... Henrique Pereira dos Santos no blog Ambio refuta:
"A questão essencial pode ser posta nestes termos:
Quando foi Chernobil, eram reactores obsoletos, num país em transição e más prácticas. Quando foi Three Mile Islands, foi uma sequência de erros humanos que nunca se repeteriam até porque se tinham aprendido as lições. Agora foi num país que funciona bem, leva a segurança a sério e percebe de tecnologia e gestão.
Simplesmente aconteceu o imponderável.
É certo que pode uma barragem rebentar, podem ser vertidos acidentalmente milhares de litros de efluentes químicos letais, mas tudo isso, por grandes que sejam as consequências, são relativamente contidas no tempo e no espaço.
Ora com a radioactividade não é assim. Se no espaço ainda se pode dizer que é relativamente contido o impacto, já no tempo a coisa é bem mais complicada. Repare-se como os grandes acidentes químicos afectaram milhares de pessoas (e milhares de hectares também, por vezes) mas nada que se assemelhe à área de exclusão, por tempo indefinido, que resulta de Chernobil..."

Estamos ainda longe de saber os efeitos nucleares do sismo.
A existência do desastre de Chernobyl foi negada durante dias, os efeitos foram sempre dissimulados para proteger a indústria nuclear e a reputação soviética. Ainda perduram investigações sobre Three Mile Islands que minimizam os danos reais apesar dos milhões pagos em indemnizações a doentes e pais de crianças nascidas com defeitos de nascença...
O peso e a verdade sobre as consequência nucleares do Japão (que ainda não estão estancadas) levarão o seu tempo.
Nem tudo o que parece o será. Mas o perigo é real e o pânico também. Potencias nucleares como a India já ordenaram a revista a todos os procedimentos de segurança e a Alemanha vai desactivar 40% dos seus reactores (17 que são anteriores a 1980).

Esperemos que a situação não se agrave e que o monstro Gojira não saia da ficção.

Mas independentemente dos futuros desenvolvimentos, fica demonstrado uma vez mais que se há país preparado para reagir a calamidades naturais e a monstros nucleares, é o Japão.


A resistência honrada, a história combativa e a cultura intemporal do império nipónico faz com a homenagem a este povo e o tributo às vítimas deste sismo sejam obrigatórias.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Emprego XXI: Um novo significado (II de II)

(II de II): No Futuro - Emprego e/ou servidão?

A residência pessoal, por seu turno, representa hoje mais um complexo gerador de limites e menos um abrigo seguro e estável. Se o “trabalho para a vida” era um marco de estabilidade, a “residência para a vida” era uma certeza.

Contudo, hoje o emprego está a deixar de ser um dado adquirido, e, de uma espécie de rito de iniciação e permanência obrigatória na sociedade adulta, está a tornar-se numa frágil aventura composta por uma série de peripécias com percalços e reviravoltas ao longo da vida, facultativa para alguns.

Apesar disso, a flexibilidade da morada não tem acompanhado a flexibilidade laboral (sobretudo em Portugal onde o mercado de arrendamento não consegue competir com a cultura da casa própria), levando a que as deslocações casa-trabalho se tenham esticado na distância e no tempo dispendido.

Assim é hoje cada vez menos comum a edificação, por parte das fábricas, de “bairros operários” que consolidavam comunidades proletárias. Em vez disso, assiste-se ao aumento da desterritorialização das comunidades trabalhadoras.

A forte competição no mercado laboral aliada às progressivas facilidades de transportes e comunicações submetem as pessoas a trabalhar cada vez mais longe da sua residência abrindo mão de sentimentos afectivos para com o “local de trabalho” e respectiva comunidade local. A desconfiança e quezílias atingem as relações laborais ocupando o espaço consignado a sentimentos de
partilha e de amizade em comunidade, prejudicando inclusive o desempenho da empresa e contribuindo indirectamente para mais precariedade.

A contrapor este ciclo vicioso, a protecção do trabalhador e a regulação do trabalho remunerado trouxe limites ao egoísmo com que uma empresa podia usar e dispor da força de trabalho, convidando à constante concertação entre partes. Aliás, as necessidades de inovação e adaptabilidade impostas ao panorama empresarial reflectem-se dentro das organizações resultando em maior frequência de actualização o que as obriga a um mais intenso relacionamento entre gestores e geridos numa perspectiva de interdependência.
Assim, ultrapassada a primazia do taylorismo e da indústria de massas, a perspectiva pós-fordista veio reposicionar o trabalhador para dentro do espírito da empresa, deixando a mão-de-obra de ser uma matéria-prima ou uma mera ferramenta para passar a ser as mãos, os braços e os próprios sentidos da organização (influenciando directamente as decisões e políticas empresariais dos patrões).


A população activa está numa tendência de envelhecimento (muito devido ao envelhecimento generalizado da população portuguesa), mas se na população de idade mais avançada as mudanças pró-flexibilidade lhes parecem inimigas, para os jovens o “choque” é mais abrangente.

As gerações que recentemente iniciaram a sua vida activa foram instruídas com a experiência dos seus familiares e amigos mais próximos, em especial os pais. Mas no actual mercado laboral já não há lugar para a figura tradicional do “chefe de família” dos tempos em que era comum a remuneração de um dos elementos do casal suprir as despesas do agregado. Hoje tanto os homens como as mulheres, cujas diferenças no mercado de emprego decrescem a passos largos, querem e podem aspirar a carreiras profissionais longas, independentemente do ramo.
Se antes a generalidade das pessoas ocupava a vida na profissão com que iniciara a vida activa a ela ficavam intrinsecamente associadas e com elas eram identificadas pelas comunidades, nas novas gerações isso é excepção.


Estamos longe das taxas de desemprego de 3,9% (2000) e hoje com recordes de desemprego, a competição pelo emprego tornou-se mais concorrida, mais complexa e mais exigente, tanto quanto mais qualificação o posto de trabalho requerer.

Mas apesar da crescente frustração na população recém-licenciada, os estudos universitários continuam a compensar bastante para a empregabilidade. Em 2009 por exemplo, a taxa global de desemprego foi de 9,5% enquanto que para a população com um diploma do ensino superior foi de 6,4%. Também ao nível das remunerações a qualificação compensa: os quadros superiores auferem cerca de quatro vezes mais que os trabalhadores não qualificados.
Em suma, é justo dizer que se para as gerações anteriores o diploma era tido como um privilégio de poucos, em pleno século XXI é um requisito universal...

Licenciados ou não, os jovens estão cada vez mais aflitos. Porém não seremos deolindamente parvos por procurarmos formação. As universidades nunca existiram para garantir empregos mas para formar mentes e espíritos capazes de ser e de produzir o que antes lhes era miragem.
O problema do (des)emprego é económico. Quando a universidade se tornar numa mera casa de formação profissional, haverá outro reduto da busca do conhecimento e respeito pela identidade humana?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Emprego XXI: Um novo significado (I de II)

(I de II): A precarização do valor do trabalho.

Na sociedade moderna o trabalho - remunerado ou não - sempre constituiu uma permanente forma de expressão e de reconhecimento da nossa utilidade na sociedade. Com ele afirmamos a nossa dignidade e nos diferenciamos com os nossos talentos. Através dele atingimos novos graus de emancipação e autonomia e com ele nos integramos nas nossas comunidades. É ainda através do trabalho que nos empossamos de satisfazer grande parte das nossas necessidades e desejos.
Todavia, não param as evoluções quanto ao modo como consideramos o trabalho, o estar-se empregado ou o estar-se ocupado.

Vários factores de ordem económica e social fizeram com que nos últimos decénios a produção industrial tenha sido substituída pela promoção comercial enquanto principal preocupação de uma empresa. Hoje é o marketing que domina a estratégia empresarial num mundo extremamente competitivo em que quem lucra não é quem consegue produzir mais mas sim quem melhor responde aos anseios do cliente. Enquanto que o tradicional taylorismo desmembrou o trabalho em acções individualizadas passíveis de padronização e remuneração colocando todo o ênfase competitivo na eficácia produtiva, este salto económico levou as empresas a dependerem sobretudo da sua capacidade de inovar e de se adaptar a novos tempos e tendências.

Ora se no século XX, o século do taylorismo e do fordismo mecanizado, as valias do trabalhador dependiam da solidez e estabilidade das suas competências e comportamentos, exigidas até pela lógica das linhas de produção, no novo milénio o novo modelo empresarial da inovação e adaptação passou a exigir trabalhadores mais qualificados e capazes de acompanhar as mudanças necessárias. Assim as empresas passaram progressivamente a promover e a valorizar a polivalência e a versatilidade das pessoas e a introduzir gradualmente uma cultura de flexibilidade.

De seguida aborda-se relação entre a precariedade laboral e a evolução do assistencialismo estatal e a sucessiva instalação de direitos laborais.
Tendencialmente o estado social disponibiliza protecções sociais na forma de subsídios monetários, regalias e serviços subsidiados que reduzem a percepção da importância do emprego enquanto garante do progresso e da segurança material do indivíduo. Sem prejuízo dos benefícios da solidariedade e da protecção no desemprego, é facto que o trabalho remunerado tem perdido algum do seu encanto enquanto forma privilegiada de participação na vida social.
A redução de necessidade do emprego faz com que também o desemprego tenha perdido algum do seu drama e de facto auto-estimula-se. Instituições como o subsídio de desemprego faz com que as pessoas estejam dispostas a esperar mais tempo por um emprego que realmente lhes agrade.

Aliás, os últimos progressos do estado social promovem inadvertidamente algum enfraquecimento dos valores socialmente construtivos que emanam do trabalho. O economista Abel Mateus justifica que quanto mais elevados são os custos de despedimento mais os recursos humanos estão detidos em sectores de tecnologia obsoleta ou de baixa produtividade por mais longo tempo. Isto significa que, à parte das implicações económicas, a retenção de trabalhadores por motivações mais administrativas que técnicas, despoleta uma desmoralização generalizada e um descrédito no trabalho em si, composta por uma redução da afeição (dos trabalhadores) e do reconhecimento (por empregadores).

Se antes os patrões despediam a seu belo prazer, também contratavam com grande à vontade.
Já nos dias de hoje, a regulação trouxe um maior receio de firmar compromisso com novos
trabalhadores, e faz sobressair nos patrões uma desconfiança maior sobre os contratos existentes - precariedade laboral.

Do outro lado da barreira os empregados não são insensíveis a isto e as suas ambições/preocupações enquanto empregado deslocam-se do bom desempenho para o bom “agradamento”, a par de um maior receio de ser despedido – mais precariedade laboral.

A precariedade gerada pela flexibilidade não mudou apenas a percepção das pessoas sobre o trabalho remunerado. Também as relações e comportamentos sociais têm sofrido alterações. Com a redução do tempo médio de permanência no mesmo trabalho (mesmo local, mesmo posto, mesma função ou mesma empresa), os laços sociais que a ocupação laboral proporcionava directamente diminuíram de intensidade e de frequência...

continua...